O jornalismo impresso vai morrer. E ainda bem

O mundo caminha a passos largos para uma digitalização total, pelos menos uma virtualização de documentos, filmes, livros, sons, imagens e, principalmente, a concretização dos jornais no mundo online. O jornal impresso vai morrer e isso não é nenhuma previsão apocalíptica, apenas um consenso do que já era esperado. O jornalismo impresso vai morrer, mas isso não significa que ele irá desaparecer. Em muitos cantos do planeta, mesmo nos países mais desenvolvidos, o jornal de papel será, digamos, eterno. O que irá desaparecer será a sua essência limitada, seu engessamento e sua visão retrógrada de como enxergar o próprio contexto que narra.

E isso será extremamente positivo. O jornalismo impresso se acomodou, se instalou em um uma zona de conforto concretada com velhos padrões e argumentos que já não fazem mais sentido atualmente. Não há nada mais primitivo do que criar alardes e decretar seu fim inúmeras vezes. Se não progrediu, por que continuar a existir como mídia?

Quando todos já analisavam apenas quantas visitas um portal recebia, novos padrões quantitativos e qualitativos, como reputação e referência, começam a vigorar como métricas mais eficientes na internet. E o jornal? O jornal impresso se contentou com o número de tiragens para medir sua abrangência, reportagens sensacionalistas para justificar suas vendas e análises batidas para corroborar seu formato físico limitativo.

Luta irracional com o nada

O jornalismo digital é, na prática, o formato 2.0 do jornalismo primitivo. Não minimizando sua importância ímpar para com o progresso da sociedade, mas o impresso não conseguiu acompanhar os passos dessa própria sociedade. Não buscou modelos inovadores eficientes e insistiu demais em sua existência, ferindo ainda mais sua real significância no mundo atual. Qualidade, ética, investigação, análises profundas e profissionalismo serão mantras eternos da imprensa. O que se extinguirá será seu formato passivo de concepção. O jornalismo atual requer multimidialidade, participação do usuário e atualizações em tempo real do mundo que nos cerca. Não há mais espaços para uma mídia que se preocupa mais com uma crise existencial do que com sua renovação.

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Em uma sociedade pós-moderna, altamente conectada e cada vez mais familiarizada com as redes sociais digitais interligadas em rede, manter um padrão de pensamento que vigora exatamente da mesma maneira há séculos chega a soar de forma patética. Se diversos campos profissionais se reinventam a cada dia, por qual motivo o jornalismo ainda insiste na não renovação?

Peço desculpas aos apaixonados pelo jornalismo impresso, mas quem decretou sua morte foi o próprio impresso. Ao se recusar em adentrar o universo digital e explorar suas infinitas possibilidades, o jornalismo impresso optou, no lugar de uma migração indolor e eficiente, por uma luta irracional com o nada. E, pior: perdeu a briga.

Ton Torres

Jornalista e blogueiro. Mestre em Divulgação Científica e Cultural (MDCC) pela Unicamp. Pós-graduado em Tecnologia, Formação de Professores e Sociedade pela Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI) e pós-graduado em Jornalismo Científico (Unicamp).

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