Decidi que seria jornalista há muito tempo. Não tinha familiares jornalistas nem amigos próximos que eram jornalistas antes de entrar para a universidade. Acontece que no último ano do colégio, enquanto todos estavam trocando de sala e, desesperados, tentando resolver o futuro, eu já tinha estabelecido a universidade na qual queria estudar e o curso que queria fazer.
Entrei na Universidade Católica de Pernambuco no primeiro semestre de 2009. Tinha 17 anos, vivia de mesada, eu, nem nenhum dos meus amigos, sabia dirigir. A minha turma fez uma comunidade no Orkut antes mesmo das aulas começarem e nas últimas semanas de férias já conversávamos pela internet sobre pretensões e desejos sobre o curso.
Foi na primeira semana de aula que a professora de Introdução ao Jornalismo nos presenteou com a primeira desilusão. “Quem aqui entrou no curso porque acha que escreve bem?”. Muita gente levantou a mão. Ela, então, disse com a voz seca, firme e dura: “Jornalismo não é inspiração. É técnica”. Por mais desalmada que essa afirmação pudesse parecer para 50 ou 60 alunos que estavam envolvidos pelo sonho de escrever, a professora não poderia ter sido mais franca e verdadeira conosco, que meses após levaríamos a próxima facada: a decisão do STF sobre o diploma do curso de jornalismo ser considerado desnecessário.
Eu estava em casa quando uma colega de sala me ligou e me mandou ligar no noticiário da meia-noite. Lembro que ouvi uma explicação maluca sobre a necessidade do diploma ser resquício do golpe da ditadura militar no Brasil. Como se, em plena ditadura, precisassem apenas de um diploma para escrever e não concordar com as ideias e o autoritarismo do regime. Vários jornalistas foram censurados, vários fotojornalistas foram massacrados. Não, definitivamente, o diploma não fazia a menor diferença diante da imprudência dos governantes do país durante a supremacia militar. Dessa forma, me senti injustiçada duplamente naquela noite. Tiraram o meu direito do diploma e enganaram a minha sociedade com uma desculpa esfarrapada e pouco convincente. Nem o trabalho de confabular uma história bem arquitetada tiveram. Era um desrespeito escancarado.
Aconteceram alguns protestos pelo Brasil. Aqui em Recife, uma passeata por uma das principais avenidas da cidade foi feita. Estudantes de Brasília, Porto Alegre e outras cidades também foram às ruas protestar. Nenhum jornal local noticiou a reivindicação, nenhum noticiário televisivo fez cobertura das passeatas. Apenas o site da Fenaj atualizava jornalistas sobre o descontentamento de estudantes e profissionais atuantes sobre a decisão imprudente.
Quis fazer jornalismo pela mídia impressa. O sonho da minha vida sempre foi trabalhar em uma revista ou em um grande jornal. Sonhava em passar madrugadas em uma redação, tomando café e finalizando matérias especiais. Acabei trabalhando em outra área e me sinto muito, muito ofendida quando me perguntam se desisti de ser jornalista. Mas a verdade, mesmo, é que eu acho que todos nós desistimos um pouquinho dos nossos sonhos após aquela notícia de 17 de junho de 2009.
Jornalismo, definitivamente, não é uma profissão que reúne estudantes pela ascensão profissional ou pelo prestígio. Quem cursa jornalismo, cursa por paixão. É uma profissão extremamente narcisista. É querer ver o que você escreveu, a sua visão, o seu ângulo de noticiar os fatos nas mãos de milhares de leitores. É aprender a contar uma história de diferentes maneiras, mas sempre escolher a versão mais próxima da verdade. É saber extrair atração de uma entrevista meia-boca, é informar à sociedade, é ser responsável pela opinião pública. Ética e Legislação no Jornalismo, Jornalismo e Cidadania, Sociologia Econômica e Política Brasileira são nomes de matérias que eu estudei e que, acredito, a maioria dos jornalistas estudam na universidade. Todas essas disciplinas nos ajudam a entender o compromisso com o social e todas as matérias práticas nos ensinam a responsabilidade com a excelência produtiva.
Após debates intermináveis sobre a necessidade ou não do diploma, após os grandes veículos ignorarem a insatisfação dos estudantes e após terem me dito, no primeiro semestre do meu curso, que eu não precisava estar ali para ser o que eu sempre sonhei em ser, acabo de entrar no último ano do meu curso e estou a poucos meses de ser uma jornalista com diploma. Muitos dos meus colegas de classe também não seguiram seus iniciais objetivos dentro da profissão. Não posso responder por eles, mas posso dizer que a submissão da mídia à escolha do Poder Judiciário e a desilusão sobre o respeito à nossa profissão me fizeram desistir, de certa forma, do factual e seguir o rumo da análise de mercado. Hoje trabalho com social media, me identifico inteiramente com o meu trabalho e se antes o grande sonho da minha vida seria trabalhar na maior editora brasileira, hoje é trabalhar no Facebook. E mais, a cada dia recebo mais e mais currículos de outros estudantes de jornalismo que desejam estagiar na área e seguir caminho em mídias sociais.
Porém acho que o fato de pessoas que aprenderam a técnica e a essência do jornalismo em sala de aula serem classificadas como tão competentes quanto quem só tem a intuição do senso comum um desrespeito não com os jornalistas, não com as universidades, mas com a sociedade que será informada por pessoas não preparadas.
Por Duda Ferraz. @duda_ferraz
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